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terça-feira, 17 de maio de 2016
Para o lixo da História
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sábado, 29 de agosto de 2015
Fernando Haddad: o Prefeito que só faz ciclovias
EDUCAÇÃO
• 33 creches (mais de 6 mil vagas de Educação Infantil)
• 15 EMEIs (7.480 vagas de Educação Infantil)
• 13.799 novas vagas de Educação Infantil pela rede conveniada
• 32 polos da Universidade Aberta do Brasil, com 6 mil vagas só em 2014 e 1 polo da Universidade Aberta da Pessoa Idosa no Cambuci
• 4 Centros de Educação em Direitos Humanos 8 Telecentros 16 polos de Educação Ambiental
SAÚDE
• 10 Rede Hora Certa, sendo 6 fixas e 4 móveis
• 4 Unidades Básicas de Saúde – UBS
• 1 Unidade de Pronto Atendimento – UPA
• 434 novos leitos em hospitais
• 3 hospitais readequados
• 2 CAPS Álcool e Drogas III Piloto do Prontuário Eletrônico do Paciente
MOBILIDADE
• 326,8 Km de faixas excluídas de ônibus, beneficiando 80% da população
• Bilhete Único Mensal, Semanal e Diário
• Pontilhão do Rio Embu-Guaçu
• Viaduto Itaquera
• Central de Monitoramento Semafórico: 3.109 semáforos reformados e 551 NoBreaks
• Programa de Proteção ao Pedestre
• 101.600 m² de calçadas acessíveis
• Acessibilidade em 68,7% da frota de ônibus
HABITAÇÃO
• 2.404 unidades habitacionais
• 8 favelas urbanizadas
• 21.723 famílias beneficiadas com Regularização Fundiária
DESENVOLVIMENTO SOCIAL
• 270 mil famílias inseridas no Cadastro Único
• 80 mil famílias cadastradas no Bolsa Família
• 24.818 vagas de PRONATEC, sendo 574 para população em situação de rua
• 122 beneficiários do Braços Abertos em tratamento para dependência
• 8.214 microempreendedores formalizados
• 5.607 vagas de Educação de Jovens e Adultos
• 4 Serviços de Acolhimento Institucional à população em situação de rua
• 16 Consultórios na Rua com tratamentos odontológicos e relacionados ao abuso de álcool e outras drogas
• Centros de Formação e Acompanhamento à Inclusão de crianças com necessidades especiais revitalizados
• 3 residências inclusivas para pessoas com deficiência
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E TECNOLÓGICO
• Agência de Desenvolvimento de São Paulo – ADESampa com 30 polos em funcionamento SP Negócios
• Agência de fomento e promoção de negócios Programa de Incentivos Fiscais para a Zona Leste
• Programa VAI TEC
• Terreno para o UNIFESP em Itaquera e o Instituto Federal em Pirituba
CULTURA
• Reabertura do Cine Belas Artes
• Criação da Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo – SPCine
• Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes
• Readequados 85 Pontos de Cultura
• 150 Bolsas Cultura
• 48 projetos de teatro, 45 de dança e 60 de cinema apoiados
• 238 projetos apoiados pelo Programa de Valorização das Iniciativas Culturais, modalidades 1 e 2
ESPORTE
• 32 equipamentos esportivos abertos 24h em 11 subprefeituras
• 21 equipamentos esportivos requalificados Requalificação do Clube Tietê para abertura ao público
CIDADE E DESENVOLVIMENTO URBANO
• Revisão do Plano Diretor
• 14 obras do Programa de Redução de Alagamentos
• 18 Ecopontos
• Programa de Compostagem Doméstica
• Programa de Feiras Sustentáveis
• 158 mil mudas de árvores plantadas
• 24 praças públicas com Wi-Fi livre (Praças Digitais)
• 1.856 lâmpadas LED e 44 fotovoltaicas (solares)
• 400 núcleos da Defesa Civil – NUDECs cadastrados
Via Rose Martins, usuária do Facebook
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domingo, 2 de novembro de 2014
Mais uma agressão fascista a eleitor de Dilma
Aproveitava o sábado em Brasília, onde estou morando desde o início do ano. Estava com a família, e resolvemos dar um passeio após o almoço.
Quando estávamos na Esplanada dos Ministérios (ao lado do ministério do Planejamento, aproximadamente) passamos ao lado de uma manifestação Pró-Aécio, Fora PT, Fora Dilma ou qualquer outra "causa", que não me interessa saber.
Quando estávamos ao lado do trio elétrico, já começamos a ouvir os tradicionais elogios: "ladrão, petralha, mensaleiro", e ver as diversas madames que lá também estavam, aplaudindo o escândalo bizarro. Meu carro tem adesivos da Dima e do PT.
Nosso carro foi então cercado por uma turba de vândalos que começaram a bater com bandeiras, tapas e chutes na lataria e nos vidros. Minha filha, de apenas seis anos de idade, minha esposa e sogra, que me acompanhavam, já começavam a ficar desesperadas. De repente, algo rígido foi lançado violentamente no vidro, que estourou com o impacto, estilhaçou, e cortou o braço de minha esposa.
Isso tudo acompanhado de perto por PMs, que faziam a "proteção" dos manifestantes e que, mesmo após os meus pedidos de ajuda, não só ignoraram-no solenemente, como apenas me mostraram um papelzinho dizendo que eles, os manifestantes, pediram autorização para o "evento", e que a eles, policiais, só cabia fazer a proteção. Nem ao menos falaram ao rádio sobre as características dos marginais que fizeram isso no meu veículo e, principalmente e mais revoltante, com a minha família.
Sai do local e dirigi-me à 5º DP (ao lado do Estádio Mané Garrincha), onde fiz a ocorrência. Nesse domingo, levarei meu carro para a perícia.
Tratava-se de um evento com organizadores conhecidos que, do alto do trio, estimulavam o ódio. Por exemplo, segundo o Correio Braziliense
o candidato derrotado a deputado Matheus Sathler.
No local também havia representantes da imprensa que inclusive tiraram fotos quando o carro foi cercado e depois quando foi vandalizado.
Não podemos deixar que isso continue assim.
Esses fascistas não passarão.
Antonio Felipe Gonçalves, usuário do Facebook, agora amigo do blog Mastrandea
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sexta-feira, 22 de agosto de 2014
BILHETE ABERTO A DONA DILMA.
BILHETE ABERTO A DONA DILMA.
Por Rubem Gonzalez
Cara Dona Dilma,
A senhora não tem noção da pica que é ser seu eleitor e ser de classe média, É uma tarefa digna pra entrar para aquela lista dos doze trabalhos de Hércules. E cairia muito bem, afinal seria o 13° Trabalho e mais um 13 no nosso mapa de coincidências.
Vou até me retratar. A senhora na segunda-feira passada sentiu no couro o que é ser seu eleitor quando foi torturada pelo William Bonner e uma tal de Patricia Poeta. Ali, a senhora teve uma pequena amostra de por que nós, seus eleitores de classe média, passamos todos os dias.
Mas fique tranquila, Dona Dilma. Aquele espetáculo grotesco aparentemente não a abalou. Assim como nossos amigos coxinhas, que no subconsciente se acham da família real, também não nos abalam e ainda servem de apoio moral para continuarmos a tua, a minha, a nossa luta.
Sei que para desgosto dos meus amigos supracitados e dos seus inquisidores, após esse período atribulado, teremos a sua reeleição. Nós, por estarmos mais vulneráveis, sofreremos mais, porém, como não temos que nos submeter às "liturgias" do cargo, podemos apelar para algum "papo reto".
Para completar, espero que essa dolorosa batalha deixe na senhora as mesmas cicatrizes que ficam em nós: acho que não é pedir demais. Perdemos amizades, abalamos relações familiares... fora prejuízos pecuniários na nossa própria labuta. Portanto, não seria pedir demais um pouco de solidariedade.
Não sei os outros amigos meus mas, da minha parte, teria verdadeira ojeriza e um sentimento de ter me desgastado em vão depois de ouvir toda a sorte de impropérios , mentiras, falta de respeito e até terrorismo dessa emissora chamada Globo, a senhora vá fritar bolinhos de chuva com a Ana Maria Braga, como se nada tivesse acontecido.
Ao invés de Bolinhos de Chuva desejo do fundo do coração que a senhora mande àquela emissora sonegadora e bandida uma chuva de meteoritos, um furacão, um tsunami e na falta de nada mais criativo, promova uma devassa fiscal, um enquadramento e um corte substancial de verbas.
Atenciosamente",
*Rubem Rodriguez Gonzalez.
https://www.facebook.com/rubem.gonzalez
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Nº 08.0120.0122-2208/14
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domingo, 8 de junho de 2014
Ao Brazil, Miami. Ao Brasil, a Rota (ou o Bope)!
Em junho de 2001, a imprensa brasileira e mundial dava destaque a um aspecto pouco noticiado até então.
No Peru, coração do antigo império dos incas, havia sido eleito o primeiro presidente indígena da história do país.
Ficava claro que o país se dividia radicalmente entre os brancos descendentes dos colonizadores europeus e os não brancos, basicamente indígenas.
Curiosamente entre os "brancos" estavam também os peruanos nipo-descendentes, que formam a segunda maior colônia fora do Japão (apesar de emigração forçada para os campos de concentração dos EUA na Segunda Guerra).
Enfim, quem dominou o Peru independente no início do século 19 foram os "brancos". Os outros ficaram de lado e eram desprezados de todas as formas, da cultura à política.
A situação peruana não era única na chamada hispano-américa naquele começo de século 21, como os noticiários iriam mostrar.
O mesmo ocorria na Venezuela, onde Hugo Chávez era "acusado"(?) de ser índio pela classe média Armani-Gucci, enojada, em marcha pelas ruas mais elegantes de Caracas. E ficou escancarado na Bolívia, com a eleição pós-revolução de Evo Morales, um indígena aymará.
Da "ilha" Brasil, olhávamos para o Oeste e pensávamos como eram atrasados e bárbaros esses nossos estranhos vizinhos.
Será mesmo?
Verdade que aqui os indígenas foram um "problema" resolvido pelos brancos no século 18.
Mas, o fato é que surgiram no Brasil novos "índios", fruto da mistura de indígenas resistentes, brancos desgarrados e principalmente negros arrancados da África para produzirem tudo.
"Índios" que, com o passar dos séculos, criaram um sotaque próprio, modos de falar, ritmos musicais, jeitos de festejar. Tudo fruto de um mix de coisas: a falta de educação formal, as raízes históricas, a miséria, a inteligência para superar os limites e as diversidades, a exclusão do poder.
O Brasil é, e reafirmo, o Brasil 'É' a mistura da ocidentalização dominante (que teve sucesso em impor a língua e a religião, por exemplo) com esses "índios" não ocidentais. Mistura que às vezes anda e dá liga, e às vezes desanda.
Quem mais contribui para o desandar são os "brancos" que só admitem a ocidentalização radical, pretensos lisboetas na Colônia que no século 19 se tornaram pretensos parisienses uns, londrinos outros, berlinenses os mais ousados. Nova-iorquinos quase todos no século 20. É o povo do Brazil.
Para o Brazil, os "índios" são vagabundos, bêbados, fracos para os vícios (sexo, drogas, ociosidade etc. etc.), que só querem festejar, batucar, jogar bola, trepar. São bregas, ignorantes. Culpados por sua pobreza e inferioridade social atávicas.
Ao Brazil, Miami. Ao Brasil, a Rota (ou o Bope)!
Cantava Elis que o Brazil não conhece o Brasil. E que o Brazil tá matando o Brasil.
Eu diria que o Brazil tem nojo do Brasil.
E a mais recente vítima do Brazil é a Copa.
Claramente uma parte do 'não vai ter Copa' é o coro do Brazil contra o Brasil.
Alguns textos por aí são explícitos ao afirmar isso.
O Brazil não quer educação e saúde públicas caras para o Brasil. Mas faz demagogia com isso para destilar o nojo contra essa negada suada que insiste em jogar futebol e, pior, torcer pelo futebol.
O Brazil da Fórmula-1, do MMA, do Grand Slam, cada vez mais torce para o futebol do Barça, do Chelsea, do Bayern.
O Curíntia, o Mengo & cia. vão ficando para o Brasil mesmo.
Quem sabe se o BNDES tivesse financiado estádios na Europa…
Ah, que tempos dissimulados. Que chato tudo isso.
por Arnaldo Ferreira Marques, em seu Facebook
07/06/2014
07/06/2014
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sexta-feira, 6 de junho de 2014
O problema não é o Brasil. É você!
(Charge de Vitor Teixeira)
Quem não quiser tentar entender os problemas, trocar ideias sobre como solucioná-los, contribuir com organizações engajadas, criar ou participar de campanhas de conscientização, e procurar votar em políticos empenhados, que pelo menos pare de encher o saco com reducionismos pessimistas e superficiais
"Só no Brasil": A apatia mental e a lógica reducionista que deseduca
"Só no Brasil": A apatia mental e a lógica reducionista que deseduca
Toda vez que um assunto polêmico surge na mídia, viraliza nas redes sociais e chega às rodas de amigos, reuniões de família e mesas de bar, começam a pipocar, por toda parte, juízos de valor genéricos a respeito “do Brasil” e “do povo brasileiro”.
Essas “análises”, que estão em alta no atual momento pré-Copa, costumam ser, mais especificamente, materializadas na forma de chavões babacas mais antigos que a minha avó: são os famosos “só no Brasil”, “isso é Brasil!”, e, ainda, o clássico e meu preferido “o problema é a cabeça do brasileiro” (que também pode aparecer na carinhosa versão “o povo brasileiro é burro”).
Leia também: Fascismo à brasileira
Que a internet e os círculos sociais estão recheados de ideias idiotas, preconceituosas e desprovidas de qualquer senso lógico ou nexo com a realidade não é novidade. O problema aqui é que as pérolas pertencentes à categoria “Brasil é uma merda porque é uma merda, e eu não tenho nada a ver com isso” não vêm sendo enquadradas como apatia mental, como deveriam, mas como demonstração de revolta consciente e politizada “contra tudo que está aí”. Um quarto dos brasileiros acha que uma mulher de shortinho merece ser estuprada? “Isso é Brasil!”. A Petrobrás fez um mau negócio em Pasadena? “Brasil, né?”. Algumas obras da Copa do Mundo atrasaram? “Só no Brasil mesmo!”.
Não. Não. E não. Na verdade, esse tipo de pensamento vazio, reducionista e arrogante empobrece o debate dos problemas que estão por detrás dos acontecimentos (que acabam sendo levianamente rotulados como “coisa do Brasil”), além de estimular e legitimar uma atitude resignada e egoísta ao melhor (ou pior) estilo Pôncio Pilatos (“lavo minhas mãos, porque a merda já estava feita quando eu cheguei aqui”).
“Só no Brasil”? Não.
Em primeiro lugar, vale uma pesquisa prévia a respeito do assunto sobre o qual se está emitindo opinião: será mesmo que o Brasil é o único país a enfrentar esse problema específico que você conheceu superficialmente através do link que seu amigo compartilhou no Facebook? Pode ter certeza que, em 99% dos casos, a gente carrega o fardo junto com mais algumas dezenas de países (se não com todas as nações do planeta), ainda que ele pese mais ou menos conforme o caso.
E não estamos falando apenas de países considerados “mais atrasados” e “menos civilizados” que o Brasil. Tem corrupção na Europa, os Estados Unidos mal possuem um sistema público de saúde, o racismo segue forte em diversos países “desenvolvidos”, e a Inglaterra é descaradamente sexista. Por isso, antes de iniciar um festival de ignorância, babar ovo de gringo gratuitamente e resumir seu discurso a uma frase despolitizada como essa, lembre-se que o Google está a apenas um clique. Caso contrário, você corre o risco de continuar contribuindo para que 40% dos nascidos no Brasil prefiram ter outra nacionalidade (apesar de o Brasil ser sonho de consumo internacionalmente).
Se “isso é Brasil”, então “isso” é você também.
Dou a qualquer um o direito de achar o Brasil uma merda monumental e sem precedentes, desde que admita ser uma merda de pessoa também. Assim, quando alguém disser “o Brasil é um lixo” ou “o povo brasileiro é burro”, na verdade estará dizendo “eu sou um lixo” e “eu sou burro”. Combinado? Porque, caros amigos niilistas radicais, é estranhamente conveniente excluir-se, deliberadamente, do conjunto de brasileiros, negando a própria cultura e origem, bem na hora em que “a coisa aperta”, não é?
As expressões “isso é Brasil” ou “esse é o povo brasileiro” não são, portanto, apenas generalizantes e reducionistas, mas também um tanto arrogantes. Quem as profere se julga acima dos defeitos da sociedade brasileira, e é incapaz de perceber que suas próprias convicções, ideias e preconceitos são na verdade um reflexo das características e problemas da sociedade brasileira como um todo.
Nem é preciso nem dizer que esse tipo de perspectiva segregatória, em que o locutor se coloca em posição imparcial e de superioridade em relação ao restante da população, gera verdadeiros fenômenos de cegueira coletiva. Um exemplo clássico é a inabilidade de algumas pessoas em enxergar o próprio racismo, o que popularizou expressões como “não sou racista, mas…”, culminando com a negação da existência de racismo no Brasil por determinadas “correntes ideológicas”.
Então, antes que comecemos a negar outros “ismos” por aí (o que, a bem da verdade, já acontece), vamos parar de subir em pedestais imaginários e nos colocar em nossos devidos lugares: na arquibancada junto com o resto do povão e toda a torcida do Flamengo.
Se “isso é Brasil”, repetir esse chavão não vai mudar nada (talvez só pra pior).
Imagine a seguinte situação hipotética: um sujeito dito “politizado” está surfando na rede, checando o feed de notícias do Facebook, dando um rolê pelo Twitter e teclando no WhatsApp, quando, casualmente, se depara com uma notícia revoltante (sabemos que a internet está cheia delas). Indignado com a situação ultrajante da qual acaba de tomar conhecimento, nosso amigo resolve mostrar toda a sua revolta por meio de um comentário impactante no perfil de quem, muito sagazmente, compartilhou aquela notícia chocante com ele. “Fazer o que, né, colega? Isso é o país em que vivemos. Viva o Bra-ziu!”.
Satisfeito com sua contribuição, o internauta bem informado segue para os próximos “hits do dia” nas redes sociais, afinal, “isso é Brasil” — não tem jeito. E ele, pessoa politizada e, portanto, ciente do “beco sem saída” que é o nosso país, nem vai se dar ao trabalho de pensar sobre o assunto (e muito menos fazer algo a respeito), uma vez que essa nação é feita de pessoas naturalmente incompetentes e políticos naturalmente corruptos. Confere? Não confere. Na verdade, cidadão politizado, o problema, neste cenário, não é o Brasil. É você.
Quando um indivíduo, ao deparar-se com determinado problema que considera sério, resume seu pensamento e manifestação à depreciação verbal genérica e gratuita de seu país, só podemos concluir que ele atingiu um nível sobre-humano de apatia mental e social. Além de não agir para mudar a situação que o indignou, contribui para difundir um clima negativo, conformista e preguiçoso por onde passa, contagiando outras pessoas com a ideia deturpada de que é impossível mudar as coisas para melhor (ou que simplesmente não vale a pena), porque “o povo brasileiro é assim mesmo”.
Resumo da ópera: quem não quiser realmente tentar entender o problema, trocar ideias sobre como solucioná-lo, contribuir com organizações e movimentos sociais envolvidos no assunto, criar ou participar de campanhas de conscientização, e procurar votar em políticos empenhados na causa em questão, que pelo menos pare de encher o saco com reducionismos pessimistas e burros. A esfera pública agradece.
“Isso é Brasil” agora, mas pode mudar. E depende de você também.
Imaginem se, há 30, 40 anos atrás, quando ainda vivíamos uma ditadura, todos pensassem que o “Brasil é assim mesmo”, que “somos um povo submisso que só funciona na ‘base da porrada’”? Imaginem se a população tivesse desistido de exigir a redemocratização, e se resignado, limitando-se a comentar com seus conhecidos, em cafés e restaurantes, que “aquilo era o Brasil”. Foi porque as pessoas não se conformaram com o que o Brasil era ou parecia ser que hoje nós vivemos uma democracia plena, onde todos podem se manifestar da forma que julgam melhor (até de forma superficial e não construtiva, como a que estamos tratando neste texto).
O direito à liberdade de pensamento e expressão é indiscutível, e o que deixo aqui é apenas um humilde conselho: vamos usar essas prerrogativas de verdade. Para debater, e não para cair em chavões limitados e vazios de que o país é uma porcaria generalizada, pior que qualquer outro, que nosso povo é burro e corrupto, que estamos no fundo poço e nunca sairemos dele, e que é impossível mudar a realidade em que vivemos. Isso não quer dizer, de forma alguma, que devemos fugir dos problemas ou nos conformarmos com o que já foi conquistado, pois ainda existem inúmeros desafios a serem superados nesse Brasil continental. Se “isso” é mesmo o Brasil, a mudança só depende de nós.
Por Priscila Silva no "Pragmatismo Político
Por Priscila Silva no "Pragmatismo Político
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quarta-feira, 4 de junho de 2014
Agente que se negou a matar José Dirceu lhe envia carta à Papuda
Corria julho de 1998. O mais antigo amigo deste blogueiro, Marcelo Rubens Paiva, havia obtido documento inédito, com a brasilianista Martha Huggins. Atestava a participação dos serviços de inteligência dos EUA no movimento de 1964, ora cinquentão.
Mas, para a confecção da capa daquela caderno Mais!, publicado a 23 de agosto de 1998, era necessário algo praticamente sobrenatural: encontrar no Brasil algum agente do que viria a ser a CIA, central de inteligência do Uncle Sam (e que falasse com o gravador ligado). Precisávamos de alguém que tivesse ajudado a dar o chamado Golpe de 1964, e com a chancela lustrosa dos EUA na carteirinha. Parecia impossível.
Foi o finado advogado criminalista Cezar Rodrigues quem deu a dica: um dos tiras mais experientes da Polícia Civil de São Paulo, Herwin de Barros, havia sido contratado pela futura CIA para ajudar a dar o “golpe”. O agente gringo e agenciador de Barros tinha um nome bem literário: Peter Costello.
Logo depois de termos colocado Herwin de Barros na capa daquela reportagem longuíssima, intitulada “A Companhia Secreta", Herwin virou capa da revista Isto É. Afinal, nos havia revelado que fora pautado para assassinar ninguém menos que José Dirceu, no congresso da UNE em Ibiúna, em 1968.
“Eu tinha ordens emanadas da CIA, a central de inteligência dos EUA, para assassinar Zé Dirceu. Não cumpri isso. E fui execrado. Em abril de 1984 mudaram até o regimento interno da polícia de São Paulo para que eu pudesse ser afastado. Tudo porque me neguei a assassinar friamente Zé Dirceu”.
Em vez de matar Dirceu, resolveu detê-lo usando apenas um ancinho enferrujado e um pedaço de pau de 70 centímetros.
Uma piada, uma boutade, que corre por aí, diz que Fernando Gabeira é o responsável pelo Mensalão: afinal foi Gabeira que determinou que, em 1969, José Dirceu seria era um dos 15 presos políticos que foram retirados da cadeia e trocados pelo embaixador sequestrado americano Charles Burke Elbrick.
Bem, a culpa não é de Gabeira: quem salvou Dirceu foi Herwin de Barros...
Herwin de Barros escreveu uma carta ao José Dirceu que ele salvou. Você verá ao final deste post.
“Minha vida toda fui perseguido por agentes de segurança, que queriam saber de que lado eu afinal estava. Ninguém acreditava que eu não estava de lado nenhum. Em 1975 o SNI plantou duas mulheres lindíssimas em cima de mim, uma negra e uma loira. Deram em cima de mim para simplesmente saber qual era a minha ligação com as esquerdas”, revela Erwin.
Ele lembra de algo que lhe custou caro.
Corria o ano de 1985. Um vetusto e poderoso delegado de polícia civil de São Paulo impede a entrada do advogado de Herwin na sala, para defender seu cliente. O advogado retira-se e bate a porta. Lá dentro, o delegado dispara a Herwin, varado de ódio: “Agora você vai ver o que é bom, ninguém mandou ter ficado ao lado dos terroristas”.
“Paguei muito caro o preço por não ter torturado, espancado, ou levado armas automáticas para prender Zé Dirceu no Congresso da UNE de outubro de 1968”, diz o hoje advogado Herwin de Barros.
Consultor de estrelas
Herwin é hoje consultor de estrelas do direito paulista como Paulo Sérgio Leite Fernandes, Ivo Galli, Orlando Maluf Haddad e Otávio Augusto Rossi Vieira. Tem duas filhas devotadas ao marketing. Herwin foi pai de santo por 30 anos. Agora é devoto da Igreja Renascer. Chamam-no, ainda, pelos nomes dos tempos jubilosos de 40 anos atrás, Brucutu ou Peito de Aço.
Seu pai, o pernambucano Eufrásio Barros de Oliveira, estrela da polícia paulista, mas que foi amigo do cangaceiro Lampião em pessoa, fez de Herwin um atleta. Nadava, boxeava, fazia halterofilismo, jogava volley profissionalmente.
Herwin de Barros tem a voz rouquenha, de trovão. Ama as vulgatas de psiquiatria. Já foi um apaixonado pelas armas brancas, facas, navalhas, adagas, paus. Gosta de indicar como imobilizava bandidos empregando apenas uma navalha. “Ela vai na sua jugular, não dá tempo de você reagir”, demonstra.
“Eu tinha ordens expressas de interrogar radicalmente, interrogar fisicamente, Zé Dirceu e os líderes do Congresso, o Ribas e o Travassos. Era uma ordem manifestamente ilegal: eu deveria cumpri-la para robustecer o flagrante, arrancar na porrada confissões do Zé Dirceu para poder enquadrar eles na Lei de Segurança Nacional. Mas não fiz isso. E por isso fui perseguido, muito, dentro da polícia. Se fizesse o que eles mandavam, as sequelas que deixaria neles não os fariam sobreviver por muito tempo”.
Herwin relata um diálogo que teve com Zé Dirceu já preso em Ibiúna. “Ele deu aquele riso que chamo de um meio esgar irônico. Ele me perguntou se, como condutor do flagrante, eu não iria usar arma contra eles. Eu disse que não. Ele me respondeu que não acreditava em mim. Então eu disse “Zé Dirceu, a primeira coisa que vem na certidão de uma pessoa é se é homem, não se é macho. Eu sou homem, e de palavra”.
Chegados em São Paulo, numa perua Willis, no Departamento de Ordem Política e Social, no largo General Osório, centro de São Paulo, Herwin de Barros entregou José Dirceu às autoridades. Manhosamente, inventou que ia se lavar da lama. Pulou a janela do Dops e foi para casa, fazendo atalho pela ferrovia. Só voltou ao trabalho três dias depois. “Só eu sei como fui repreendido por ter sumido. Mas não tinha como usar armas contra estudantes. Eles não eram terroristas que assaltavam bancos. Eram baderneiros”, explica Herwin.
Diploma de Uncle Sam
Ele guarda daquela época um tributo impresso do qual se orgulha: o diploma de segurança de dignitários, assinado pelo general Adélio Barbosa de Lemos, então secretário da segurança pública de São Paulo. A data da chancela lustrosa do general é evocativa dos anos de chumbo. “Ele assinou o diploma em 14 de março de 1964, pouco antes da Revolução de 64, a qual já sabíamos que ia acontecer”. Em verdade os vocábulos “segurança de dignitários” eram eufemismos: o diploma era a notificação notarial de que Herwin de Barros tinha feito, com 40 homens escolhidos a dedo, um curso ministrado em São Paulo pela CIA, a Central de Inteligência dos EUA. “Quem deu o curso foi um septuagenário, de cabelos brancos, norte-americano, chamado Peter Costello. Era da CIA e formado na Escola das Américas”, explica.
“Eu havia prendido Zé Dirceu. Comecei a ser seguido. Um dia entro no meu carro e vejo um envelope branco no banco. Abro. E leio “se você estiver do nosso lado, queime este envelope agora. Se não, apenas o guarde e depois se livre dele”. Era sinal inequívoco que Herwin estava sendo observado. Mas por quem? Bandidos ou mocinhos de então? “Até hoje eu não sei”, gargalha Herwin de Barros. Com toda essa vida incandescente, com tantos episódios abismais, Herwin confessa jamais ter temido a morte. “Quem não morre não vê Deus".
A carta a José Dirceu
Herwin de Barros entregou a este blog, com exclusividade, uma carta que escreveu a José Dirceu. Confira:
Caro José Dirceu:
Eu, refletindo nestes últimos anos, observo o nosso querido país viver entre intestinos ranços, uma das mais delicadas situações generalizadamente promovida por egos exacerbados emanados pelo poder aliado à grande cupidez.
É com pesar que vejo a olhos claros tais desmandos. Outrora eram mais sofisticados de difícil transparência, porém com o mesmo fim, aliás de uma forma ou outra é no mundo, isto porque: o amor ao dinheiro em primeiro plano é a raiz de todos os males.
Há minoria proba que não se vende, respeitam valores e princípios. Por falar em princípios, reporto-me a 1968 quando em Ibiúna foi desfeito o congresso nacional da UNE onde então te conheci, caro José Dirceu, você que foi um dos maiores lideres estudantis da história do Brasil.
Jovem procurado por articular grandes passeatas, comícios relâmpago, e ações outras não-radicais e sem armas, vocês se defrontavam em pelo com policiais, no mano a mano.
Entre outros procurados, era você o grande líder.
Reiterando a profícua palavra “princípio”, quando de você me recordei, tinha eu ordens para radicalizar teu interrogatório no próprio local, longe dos demais, pois era área de quase mata, e se assim o fizesse para tirar-te informações preciosas, poderia você ter sofrido algum mal maior ou definitivo....
Não atendi a esta ordem manifestamente legal, porque não era você o roubador de banco, guerrilheiro urbano, terrorista com bombas e atentados, que feriram e mataram muitos inocentes além de membros da segurança interna –como foi o oficial da forca pública Alberto Mendes Junior, morto a pauladas, Mario Kozel Filho, a bomba, etc. Se elencarmos a proporção, dos dois lados, eles quase se equivalem.
Mas a maioria incute aos menos avisados que existe um lado só, como se fosse possível guerra sem inimigos.
Se fosse você um destes, como eu te disse naqueles dias, você veria de verdade quem era quem era eu, Brucutu, do saudoso Setor Contra de Assaltos de Bancos, , hoje Deic ...uma época de confronto entre homens, cada um cumprindo o seu mister.
Após tão histórico fato, deparei-me com você no aeroporto de Congonhas, num corredor sombrio, só nos dois, por volta das 22h30, naquele longínquo 1998, quando você retornava de Brasília, 30 anos após,. Você era deputado federal.
Nos dias de hoje, o que tenho a te dizer é que sempre há primeira vez em tudo, e por consequência todos têm o direito à segunda vez. Digo isto porque você é intrépido, astuto, inteligente e com perfil para ser um grande estatista.
Mas não sei por quais águas você andou e provavelmente pecou por erro de avaliação, ao confiar ao longo dos anos em pessoas que, vendo o seu potencial, provavelmente o envolveram, sabendo como fazê-lo até galgarem altos postos; e como dizia sir Winston Churchill, o maior estatista do mundo, “o poder é o maior afrodisíaco que existe”.
Quanto a Ação Penal 470, não conheço os autos: mas é obvio que como advogado respeito a decisão do STF. Mas vi também muitos cerceamentos e diminuições de colegas, por parte de ministros que comportaram-se com o devido rigor, como o faria nosso grande mestre e decano Paulo Sergio Leite Fernandes.
Quanto ao teu trabalho fora da cadeia, este só é possível após dois quintos da pena, quando passarem para o regime aberto. O semi -aberto é cumprido em instituto penal agrícola ou industrial, retornando à tranca a noite.
Não haveria sentido na vida se todos que erros cometessem não pudessem purgar os mesmos e retomarem seus novos rumos, com nova vida a trilar a trilhar caminhos outros.
Quem não tem pecados que atire a primeira pedra.
Ninguém e tão e inteligente quanto parece e ninguém é tão burro quanto parece; gosto muito de jargões, sejam eles os chulos, das calçadas, ou bíblicos.
Como diziam os grande e românticos os grandes e românticos malandros de outrora, da velha Lapa do Rio de Janeiro, “macaco é 17 mas dá com 68”...
Infelizmente a hipocrisia reina nos dias de hoje de forma avassaladora, com os valores invertidos, desagregação da família natural, a sociedade decadente com a mídia televisiva a propagar tudo isso...
Não abro mãos dos meus princípios familiares. Em sua maioria, a mídia apresenta o que lhe convém, por motivos outros. A meu ver, no mundo Sodoma, Gomorra e Torre de Babel já estão instaladas há muito.
Eu, como todo aquele que respeita a vida, fui execrado e até hoje o sou por nao ter executado você, José Dirceu.
Quem tem poder de a vida e morte é Deus, e a ira cabe só ao Senhor.
Encerrando, te desejo sorte. E que deus o abençõe e que a glória da segunda casa seja maior do que a da primeira.
Em terreno árido só há agua cavando: portanto seja como a corsa, caro José Dirceu.
Afetuosamente, de quem te salvou
Herwin de Barros
Por Claudio Tognolli
Foto e texto retirados do "Yahoo" (Se for acessar o https://br.noticias.yahoo.com/blogs/claudio-tognolli/agente-que-se-negou-a-matar-jos%C3%A9-dirceu-lhe-envia-carta-%C3%A0-papuda-135921358.html não leia os comentários).
terça-feira, 13 de maio de 2014
Ladislau Dowbor: "O Brasil está mudando para melhor. Não dá para contestar isso."
(Ladislau Dowbor para o Site do Zé Dirceu)
A relação entre as transformações do Brasil nas últimas duas décadas e a luta para superarmos a herança nefasta de 21 anos de ditadura militar é o tema da entrevista concedida ao Blog do Zé pelo economista Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP.
Dowbor, dentre os mais atentos observadores e analistas da cena política e econômica brasileira, que não apenas viveu o período militar, mas lutou contra a ditadura, mostra como a desigualdade social e regional fizeram parte do modelo adotado pela ditadura militar. Destrincha o milagre econômico e aponta o que estava por trás da máxima daqueles anos “deixar o bolo crescer primeiro, para depois distribuir”.
No alto de sua experiência em consultoria para as Nações Unidas e outras entidades, além de diversas passagens pela máquina pública, tanto no Brasil como no exterior, Dowbor alerta para a inconsistência das análises econômicas que atualmente pululam na mídia. Didaticamente, ele mostra o caminho: “É preciso fazer a lição de casa”, ou seja, o trabalho do economista: procurar os números, analisar os dados, comparar, checar…
Em seu site, www.dowbor.org, vocês podem encontrar e baixar os trabalhos do professor Dowbor. São mais de trinta anos destinados à economia e ao esforço de traduzi-la para um conjunto cada vez maior de pessoas. Seu mais recente trabalho, “Os Mecanismos Econômicos” (confira a íntegra aqui), mostra exatamente como funciona o sistema econômico e porque interessa a alguns setores que esses mecanismos permaneçam desconhecidos pela maioria da população.
Acompanhem a entrevista:
Uma das coisas que exploraram e usaram de pretexto para dar o golpe é que a inflação do governo João Goulart, o Jango era altíssima. Depois, durante a Ditadura, em longos períodos, tivemos inflação altíssima…
[ Ladislau Dowbor ] Em seus trabalhos, o Celso Furtado deixou muito claro que a inflação é um mecanismo de transferência de recursos. De forma geral, dos pobres para os ricos. Mais especificamente, das pessoas que têm renda fixa para os que têm renda variada. Uma empresa cuja matéria prima teve seu preço aumentado, acaba aumentando seu preço de venda. Ela tem formas de acompanhar a evolução da inflação. Um banco, se passa a captar dinheiro com um preço mais alto, ele joga isso nos juros. Eles têm como repassar o processo inflacionário para a frente. Agora, quando a inflação bate no trabalhador, ele fica esperando o reajuste salarial. Só que ela é empurrada durante todo o mês. Então, quando ele recebe o pagamento, na semana seguinte, o salário já vale muito menos.
Os assalariados, os aposentados e os pequenos produtores, que não têm como passar o preço para frente acabam perdendo a capacidade de compra que é transferida para as elites. Em particular para os bancos que criaram todo um sistema de aplicações de alta rotatividade. Neste sistema, eles aplicam o montante que o depositante deixa no banco. Com isso, os correntistas estavam perdendo o seu dinheiro e os bancos não. Todo processo de inflação se constituiu na transferência de concentração da renda nas elites. É importante pensar a inflação assim, porque as pessoas dizem “os preços subiram”. Inflação não aparece, de repente. Alguém subiu os preços para ela existir. E são esses grupos que sobem os preços, em particular os mercados financeiros, que jogam com a inflação como uma forma deles conseguirem reforçar a concentração de renda.
Isso é tão enraizado na cultura das elites brasileiras que em 1993, com o Plano Real, quando se quebra a inflação, foi feito uma troca: os bancos pararam de ganhar o que vinham obtendo com a inflação e passam a ganhar com os juros com duas vertentes: com os juros comerciais e com a taxa Selic. Apresentar juros ao mês é uma desonestidade
Tão alta e constante elevação dos juros, chega a ser, então, uma desonestidade?
[ Dowbor ] No caso dos juros comerciais, as pessoas não se dão conta, até porque não conhecem os juros internacionais e do resto do mundo. Só para citar alguns exemplos. Houve um escândalo nos EUA porque eles estavam cobrando 16% de juros ao ano no cartão de crédito. No Brasil o índice é 238% ao ano. O juro é calculado ao ano. Apresentá-lo ao mês, como ocorre no Brasil, é uma desonestidade, porque você esconde que ele é cumulativo. A pessoa pensa “é só 3%”. Eu sou professor da PUC-SP. Ela me paga no Santander e o cheque especial aqui no Brasil é de 160% ao ano. Agora, lá na Espanha, o correntista do Santander tem o direito de entrar no cheque especial até 5 mil euros, por seis meses e com juros zero. Isso é lógico. Como as pessoas deixam ali um dinheiro não aplicado – mas que o banco aplica – se o correntista entrar um pouco no vermelho, as coisas se equilibram. Existe uma lei para isso.
De certa maneira, o processo de concentração de renda nas mãos das elites (dos rentistas, principalmente aplicadores financeiros de diversos tipos), garantida pelo sistema da inflação, acentuada em 1964, se manteve por meio do sistema dos juros dos bancos comerciais a partir de 1993, quando entra o Plano Real. Basicamente hoje isso está na faixa de 60% ao ano para pessoa jurídica e 110% ao ano para pessoa física. A média do que se paga aqui no Brasil ao mês é o que se paga no resto do mundo ao ano. Em outras palavras, temos uma gigantesca transferência de recursos dos produtores, dos assalariados, das empresas produtoras para os intermediários financeiros, os rentistas.
E via a alta taxa SELIC?
[ Dowbor ] A outra via dessa transferência, além dos bancos comerciais, é a SELIC. Quando o Lula assume em 2003, a taxa SELIC estava a 24,5%, risco zero e liquidez total. Eu coloco a minha poupança no banco, ele usa esse dinheiro e me paga 8% ao ano. Mas, ele pega esse dinheiro e compra títulos do governo. O governo está pagando ao banco 24,5%, risco zero. No governo FHC a SELIC chegou a 46% ao ano. Mas, de onde o governo tira esses 24,5% para pagar? Ele tira dos impostos. Da minha aplicação, o banco me paga 8% ao ano, mas tira 24,5% do governo. Isso é uma transferência de renda que funciona atualmente, chegando à ordem de R$ 150 bi/ano transferido dos nossos impostos para pagar os bancos.
Eles acabaram com a CPMF que era um imposto razoável e eram os bancos que pagavam, porque eles fazem as transações financeiras, os demais pagavam pouco. Acabar com a CPMF foi uma forma de absolver os bancos dos impostos que chegava a R$ 60 bi. A SELIC chega a R$ 150 bi ao ano, é dinheiro dos nossos impostos transferido para os intermediários financeiros. Além disto, cobram juros exorbitantes, basicamente a mesma taxa ao mês que no mundo se paga ao ano. A isto temos de acrescentar os crediários comerciais, com os juros que eles obram, tipicamente de 100%. Pensem no exemplo das que têm dedicação total a nós. Tipicamente, um fogão que sai a R$ 200,00 da fábrica, eles vão pagar 40% de imposto, e vão ganhar bem mesmo vendendo à vista, cobrando por exemplo R$ 420 a vista. A prazo sai R$ 820,00. O consumidor está pagando $820,00 por um fogão que sai a R$ 200,00 da fábrica. É na venda a prazo, com juros exorbitantes, que se faz realmente o lucro. É mais uma atividade de intermediação financeira do que prestação de serviços comerciais.
Existe uma máquina de intermediários que drena as capacidades produtivas, tanto por reduzir a capacidade de investimentos dos produtores, como de obtenção por parte da população. Esse era o sistema contra o qual o João Goulart queria tomar medidas – estava em suas propostas de reformas de base. Foi o sistema que a ditadura militar reforçou mantendo a inflação e é o sistema que continua no tripé juros dos bancos / juros dos crediários / e taxa SELIC. Você pode me perguntar, mas por que esse negócio funciona? Funciona por uma razão muito simples: porque ninguém entende o sistema financeiro. Tanto isso é verdade que o Joseph Stiglitz, que foi economista-chefe do Banco Mundial, ganhou um prêmio Nobel porque ele mostrou como funciona. Mostrou esses mecanismos com base na assimetria da informação.
Vamos supor que você tenha um dinheiro e queira fazer uma aplicação. Você chega no banco e vai perguntar para o gerente de crédito no que deve aplicar. No final das contas, vai acabar fazendo o que ele achar. Você não acha nada.
Com Lula, o Brasil dá uma guinada
No regime militar, havia arrocho salarial e a máxima “o bolo precisa aumentar para depois dividir”. A partir do governo Lula, com o aumento dos salários acima da inflação, especialmente do salário mínimo – política consagrada por aquele governo – houve uma mudança?
[ Dowbor ] A partir do governo Lula, pela primeira vez, o Brasil teve uma guinada. O conceito de arrocho salarial está baseado em uma visão de economia que não se aplica mais. Todos os avanços tecnológicos na área produtiva hoje se baseiam no pouco que tivemos de investimentos nas áreas sociais. Quando uma empresa contrata um jovem engenheiro de 25 anos, esse rapaz representa 25 anos de investimento social. É uma pessoa que vai ajudar o país a desenvolver atividades sofisticadas. Se não tivermos esse investimento no homem – no conjunto de setores que tornam a pessoa efetivamente capaz de produção – nenhuma área funciona e você não tem bolo nenhum. Nós aumentamos a capacidade produtiva e vimos o tamanho do déficit no social, porque não se investiu de maneira equilibrada nos processos produtivos diretos. Ou seja, no vetor que faz funcionar o conjunto da máquina produtiva – os trabalhadores, as pessoas.
Nós tivemos uma modificação profunda a partir do governo Lula. Isso é discutido pelo Guido Mantega e por toda a equipe econômica. E a mudança não é só no Brasil, em termos de teoria economica. Estou falando também do Amartya Seen (Nobel de Economia em 1998), no conjunto da teoria econômica das Nações Unidas. Não é fazer o bolo e distribuir. Mas, primeiro, distribuir para poder fazer o bolo.
Nada gera mais capacidade produtiva do que investir nas pessoas
Fazer distribuindo?
[ Dowbor ] Mais do que isso. Há um relatório da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL, da ONU), de primeira linha, A Hora da Igualdade , que hoje orienta nosso continente. Ele mostra que os países que investiram nas pessoas, na educação, na saúde, na cultura etc, foram os que mais se desenvolveram e não o contrário. A explicação é que o mecanismo econômico que todos chamavam de “gasto do Estado” nas pessoas é, na verdade, investimento. Investimento no homem, no trabalhador.
Nada gera mais capacidade produtiva do que investir nas pessoas. O Japão, a Coreia, a China seguiram esse caminho. Existe um filme muito interessante chamado Os Caminhos da Escola, de 50 minutos, sobre o sistema educacional de Xangai. Lá, existe um professor para cada dez alunos. Eu visitei a China várias vezes. Agora, pergunta: o que é para uma professora aqui no Brasil tentar manter 40 moleques quietos numa sala de aula? Você tem um outro conceito, outro nível de importância para a educação lá.
O que significou o milagre econômico, na prática?
[ Dowbor ] Essa ideia de “crescer” do período da ditadura casava muito bem com os interesses da elite de abocanhar mais dinheiro, mas não fechava o ciclo. A produção como um investimento nas pessoas faz parte de um circulo completo, porque sem esse investimento não se aumenta a produtividade.
O resultado é que você teve um milagre econômico, mas basicamente de multinacionais que vieram aqui produzir para as elites. O que se produzia na época? Automóvel, televisão, geladeira. Os apartamentos para a classe média e a classe média alta. Isso casava bem com o que foi o regime militar. A concentração de renda era necessária para eles para expandir o mercado, porque eles trouxeram para um país pobre produtos que eram generalizados nos Estados Unidos. Só que esses produtos não estavam dentro da capacidade de compra dos mais pobres. A maneira de você expandir o mercado para bens relativamente sofisticados era concentrar a renda. Daí que se aumentou essa bolha de classe média e, até hoje, a gente se sente nela. Mas, isso reforçou a elitização e quando se preencheu a bolha de prosperidade, todo o sistema caiu de novo.
O sistema só foi retomado, efetivamente, a partir do governo Lula. O povo fala do Bolsa Família, mas muito mais importante foi o aumento sistemático do salário mínimo. Nós tivemos em 10 anos, um aumento de compra efetiva da ordem de 60%. Isso é gigantesco para quem está lá embaixo. Um pouco de dinheiro embaixo gera muita transformação. Esse mesmo dinheiro em cima não muda nada. O fato do dinheiro ser muito mais produtivo quando vai para a base da sociedade é uma clareza desse processo que tivemos apenas nos últimos 10 a 15 anos.
O Joseph Stiglitz (o Prêmio Nobel de quem ele falou acima) disse sobre o Brasil: “não só fizeram, mas mostraram que dá certo”. Saiu recentemente um estudo de indicadores de progresso social, da Universidade de Havard, que não é nada de esquerda, mostrando os avanços do Brasil. Na realidade, não tem muito mistério. Você amplia a base, faz uma pirâmide de base muito mais ampla, gera um mercado muito mais amplo, aumenta a escala de produção, de custos unitários e gera uma dinâmica de crescimento com mercado interno, inclusão social e impactos concretos.
Falas como essa do Stiglitz e tantas outras acabam não ganhando o devido destaque. Onde as pessoas podem procurar informações?
[ Dowbor ] Nós temos agora uma pesquisa de fundo realizada em 2013, o Atlas Brasil 2013, que trabalhou o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de todos os 5.565 municípios brasileiros (confira a íntegra). A pesquisa tem uma escala inter-institucional que não permite maquiagem de cifras. Ela é das Nações Unidas, IBGE, IPEA e Fundação João Pinheiros de Minas Gerais. Todos esses órgãos se associaram, participaram do seu levantamento. Eu participei de reuniões nesse processo e garanto que, pela primeira vez, nós temos uma imagem correta de IDH agora. E, até para que ninguém venha dizer que são cifras do PT ou qualquer bobagem do gênero.
A gente pegou como intervalo de análise 20 anos – entre 1991 e 2010 – e os dados são impressionantes. Em 1991, nós tínhamos 85% dos municípios brasileiros classificados com IDH muito baixo. Isso significa, abaixo de 0,50. Uma situação catastrófica em 85% dos municípios brasileiros. Em 2010, são apenas 32 municípios nesta situação, ou seja, 0,6% da totalidade.
Nesses 20 anos, o aumento de esperança de vida foi de 9 anos. Isso é gigantesco. Passamos de uma média de 65 anos de esperança de vida (em 1991) para 74 anos. Isso significa que o Brasil, o brasileiro, em duas décadas, ganhou 9 anos. Qualquer um que disser que o país está em crise está falando uma besteira monumental de quem não fez lição de casa. Ou seja, simplesmente, não viu os números.
Vários outros indicadores provam a melhora. Por exemplo, a população brasileira de 18 a 20 anos, com curso secundário completo, passou de 24% para 58%. Isso também é gigantesco. Claro que ainda é muito pouco, mas o ponto de partida era dramaticamente baixo. É bom lembrar que a ditadura não investiu na área humana. Estamos pagando o preço disso até hoje. O avanço educacional e de esperança de vida, só para citar exemplos, indicam um resultado de fatores aí, como aumento da cobertura do sistema de vacinas, saneamento, acesso a alimentação para as crianças etc. Essas coisas impactam.
A média de moeda estável de aumento da renda per capta familiar foi de R$ 346,00. Em uma família de 4 pessoas, isso significa ter mais R$ 1 mil por mês. Significa poder comer carne, ir ao cinema com as crianças. Isso tudo se soma com os números do governo. Foram tiradas da miséria 36 milhões de pessoas pelos vários programas sociais dos governos Lula e Dilma Rousseff.
Isso a partir de 2003, primeiro ano de governo Lula?
[ Dowbor ] Sim, a partir de 2003, (esses programas) se aprofundaram muito. E eu digo isso com muita tranquilidade, porque a Ruth Cardoso (falecida esposa do presidente FHC), no tempo do governo de seu marido, pediu para eu dar uma assessoria naquilo que ela chamava de Comunidade Solidária. Dei, foi uma atividade não paga, algumas vezes por ano e eu não me fiz de rogado. Dei os conselhos que precisava dar para o interesse do país. Quando começa o governo Lula, nós tínhamos 60 milhões de pessoas – na ordem de grandeza, 1/3 da sua população – sem carteira de identidade, conta bancária, endereço postal. Enfim, 60 milhões de brasileiros não existiam para a administração pública.
Tanto que foram necessários dois anos para que o governo pudesse chegar até toda essa gente, identificando e cadastrando. Só nesse investimento do cadastro, foram incluídas 60 milhões de pessoas na cidadania. Em termos de Bolsa Família, isso é muito mais do que transferência do dinheiro, até porque o programa é condicionado a vacinas, educação etc.
Na realidade, a partir desse cadastro foi possível um conjunto de outros programas que passaram a se enraizar a partir deste conhecimento. Um exemplo é o Luz para Todos que levou eletricidade para quem ainda não tinha. Você puxou 60 milhões de excluídos e isso gerou uma base política muito forte que permitiu, inclusive, a reeleição do Lula e a eleição da Dilma. Até porque, por mais que as elites e a classe média gritem, por mais que a mídia distorça as coisas, a base da população se baseia no concreto, no bife que agora consegue comprar.
Avanço no Brasil é gigantesco
O avanço no Brasil é gigantesco. Eu me irrito um pouco como as pessoas pensam o Bolsa Família. Ou não estão fazendo a lição de casa ou estão de má fé. O aumento do salário mínimo atinge cerca de 26 milhões de trabalhadores, permitindo efetivamente aumentar o poder de compra e cerca de 18 milhões de aposentados. O Bolsa Família atinge cerca de 50 milhões de pessoas. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) passou dos ridículos R$ 2,5 bi para cerca de R$ 15 bi o orçamento do financiamento. Pela primeira vez, o pequeno produtor começou a poder investir, a se desenvolver. São cerca de 2 milhões de famílias. É muita gente. Há outros programas da maior expressão, como o Territórios da Cidadania e o ProUni, que permite o acesso à universidade para cerca de 1 milhão de moleques que não tinham esperança alguma de entrar na universidade e outros.
O avanço se explica por um mecanismo que não é a bolha de prosperidade classe média/elites, como era na época da ditadura, mas um embasamento do conjunto da máquina econômica, da sociedade em geral. Essa rearticulação não é só puxar os pobres para cima, mas também reduzir as distâncias regionais, as distâncias raciais, as distâncias de remuneração entre os gêneros que continua sendo precária – a mulher ganha mais ou menos 70% em média do salário de um homem para fazer a mesma atividade.
Uma coisa interessante de se dizer é que como a gente pegou nessa pesquisa do Atlas Brasil 2013, os anos de 1991 a 2010, apareceram as cifras do governo FHC e neles houve fortes progressos também. Esses progressos se devem, essencialmente, ao Plano Real. A inflação era uma punção tão forte na capacidade de compra da sociedade em geral, que o Plano Real fez com que a década fosse muito positiva. O que aconteceu com o governo Lula é que passou a existir uma sistemática, uma política de Estado de inclusão que gerou emprego e aí a coisa adquiriu um ritmo forte. Se olharmos duas décadas de Brasil fica claro: o país está mudando e para melhor. Não dá para contestar isso, a não ser por motivações políticas ou interesses específicos.
Na sua visão, como se explica então esses ataques contra o país?
[ Dowbor ] Respondo com o meu exemplo. Eu fiz a lição de casa. Peguei os números no Ministério do Desenvolvimento Social. Os números estão ali, online, qualquer um poderia, qualquer jornalista com um mínimo de consciência pode fazer e ver como estão os projetos, seu andamento, a atualização física, financeira. No site do Ministério há os contatos para quem tiver dúvidas. Isso dá para fazer. São 149 projetos. Eu fiz esse tipo de avaliação durante muitos anos para as Nações Unidas e sei o que são cifras reais e o que é maquiagem. Até porque os números têm de bater. Eu não tenho dúvida: o movimento gerado no Brasil é muito forte. Só cego não vê.
Eu pego e analiso os indicadores – Atlas Brasil 2013, PNADs, sínteses de indicadores sociais do IBGE, e os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável, um documento magistral que o IBGE vem produzindo.O Joseph Stiglizt, que não é um cara desinformado, está dizendo “está dando certo”. Michael Porter (professor de Havard) e o pessoal da Universidade de Havard também dizem “está dando certo”.
Esse imenso ataque que estão fazendo, em parte, é por desinformação. Mas, em grande parte, ele é feito por uma elite que quer resgatar os tempos de antigamente. Por que aparece de volta uma Marcha da Família? A saudade dos militares? “Eu era feliz e não sabia”? Além disso, a classe média tem força e essa mídia que, no Brasil, pertence basicamente a quatro famílias tem como perturbar e travar um processo de progresso que se constata.
Quais as heranças da ditadura?
[ Dowbor ] Uma das principais é que nas últimas décadas nós tivemos deslocamentos profundos. O tipo de concentração de renda que as multinacionais exigiam aqui no Brasil foi somente com o regime militar. Essa herança da desigualdade permanece e isso apesar de uma década de uma política sistemática de Estado, de se puxar o pessoal de baixo para cima, de fazer inclusão produtiva, social etc. Nós continuamos sendo um dos 10 países mais desiguais do mundo. Nós temos muito caminho ainda de inclusão, apesar de sentir-se que para as elites e a classe média, nesse quesito, já deu, já chegamos ao máximo. elas dizem: “Oh, meu Deus, essa gente está chegando e invadindo a nossa praia…”
Agora, quando nós pensamos nas multinacionais lembramos do setor automobilístico etc. Com razão, mas a gente esquece o campo. A guerra das commodities pelos grãos no planeta é muito forte. O Brasil tem uma das maiores extensões de terra agricultáveis parada e com água, o que hoje é chamado de ouro azul. Contra a reforma agrária se gerou tudo. O presidente João Goulart, o Jango, estava propondo um mínimo de reforma agrária. Francamente, o agricultor não ter acesso em um país que tem por baixo 160 milhões de hectares de terra agrícola parada é um absurdo.
E o que é hoje a bancada ruralista? Ela é um sistema interligado com os grandes tradersinternacionais – como Bunge, Cargilletc – que trabalham para a exportação e pagam muito pouco imposto. Não há imposto para comprar terra no Brasil. É uma baba comprar em grandes quantidades e o imposto territorial é uma piada. Se você comprar no exterior vê a abissal diferença… Na Europa por exemplo, se você tiver uma terra que não usa, o imposto é de um tamanho tal que ou você vende ou produz. Por que isso é importante? Com o massacre das Ligas Camponesas e a liberação geral dos jagunços no interior, ou seja, com a generalização da violência no campo, você forçou violentamente a expulsão do homem do campo. Isso gerou essa massa de miseráveis nas cidades que temos de enfrentar até hoje. São Paulo, Recife etc. Foram pessoas expulsas do campo que migraram para cidades controladas pela direita na época, onde só se investia nas classes média e nas elites.Cidades que incharam, não é que cresceram.
Agora, estamos em 2014. Você vai nas periferias e nas favelas e vê como as pessoas ainda vivem. Está sendo feito todo um trabalho. Foi criado o Ministério das Cidades no governo Lula, mas o que temos é ainda um imenso atraso. Nós somos um país com 85% de população urbana. Nos anos 50, nós tínhamos 2/3 de nossa população na área rural. Há poucos exemplos no mundo de êxodo rural por expulsão do campo tão profundo e tão violento – porque foi muito mais expulsão do que por atração das cidades. Essa é outra herança da ditadura.
Agora, esse processo de urbanização e criação de periferias miseráveis em torno das cidades é extremamente difícil de mudar, porque se enraízam estruturas de poder. Como a indústria das drogas. O que aconteceu na realidade? Você jogou o rico e o pobre e os aproximou compulsoriamente. Você tem uma reação dos ricos hoje. Eles constroem suas ilhas, seus Alfavilles (um dos mais estritos e luxuosos bairros-condomínios fechados de São Paulo), com controle e cercas elétricas, tal como os senhores feudais com seus castelos e sua ponte. Isso é patológico. É patológico, inclusive, para as crianças que nascem ali e têm medo do mundo. Não conhecem as coisas.
Heranças trágicas
Além do exôdo rural forçado, quais outras heranças você citaria da ditadura?
[ Dowbor ] Nós temos outra herança maldita que é esse peso dos juros, a taxa SELIC, o rentismo etc. que carregamos até hoje. E tem uma herança política trágica que é a Lei de 1997 que liberou o financiamento corporativo das campanhas eleitorais. A partir de 1997, com essa lei, as empresas podem colocar 2% do seu capital para financiar candidatos. Isso é trágico. Repito: 2% do capital, não do lucro. O que é muito dinheiro. Com o financiamento das corporações, você passa a ter uma bancada dos bancos, uma bancada dos ruralistas, uma bancada das grandes empreiteiras. Eu te pergunto: cadê a bancada do cidadão?
Está na nossa Constituição, “o poder emana do povo e em seu nome será exercido”. Corporação não é povo, a corporação é um instrumento econômico, legítimo, mas não é povo. Com essa lei, gerou-se uma grande dificuldade para você introduzir transformações no país, transformações extremamente fortes.
Além disso, tem uma dimensão que ninguém fala – imagino eu, por prudência – que é a dimensão do Judiciário. Quando a gente olha o Judiciário, por exemplo, a imensa expulsão de pequenos produtores durante o governo militar, com os juízes regionais que em geral são das famílias dos grandes proprietários dali, gerou-se uma grilagem generealizada e legalizada. Todo sistema de cartórios, que levou a uma expropriação monumental, tem uma tradição de conluio do Judiciário com esses grandes interesses. Daí você ter juristas de alta relevância no país dizendo tranquilamente “a ‘revolução’ gera sua própria legalidade”. Ou seja, você faz o que quer e declara o que é legal. Francamente…
Sem falar que a revolução a qual eles se referem é o golpe de 64…
[ Dowbor ] Não é possível falar de revolução sendo que o golpe que o que o golpe fez foi assegurar a continuidade de reforços em relação às elites. O sentido do golpe é o de manter e aprofundar os privilégios e os desequilíbrios na base da força e do porrete. A classe média é sempre muito barulhenta. Ela fica histérica. É curioso o tipo de bobagens que se escuta e se lê. A gente estuda isso em outro plano, que é a formação das pessoas, das visões sobre economia, sobre a política. Quando se trata de proteger privilégios, a tendência das pessoas é trancar completamente a cabeça e raciocinar com o fígado.
Todos esses dados que mencionei e outros que estão aí que atestam os avanços, quando você vai mostrar, tudo isso não passa. As pessoas estão buscando argumentos para dizer “não, isso não pode ser verdade”, “é tudo maquiagem”. As pessoas se crispam na defesa dos seus privilégios. Há um economista francês, muito interessante, o Delavoye, que afirma ser muito mais fácil tirar o necessário do pobre, do que o supérfluo do rico. Essa é a tensão que a gente enfrenta.
A ditadura teve grandes escândalos, mas o que ouvimos sempre é que não havia corrupção naquele tempo, ou que depois dela, na redemocratização, na democracia, foi muito maior. Por que isso?
[ Dowbor ] Dizer que há mais corrupção agora do que em outros tempos é, simplesmente, uma bobagem. Quando você tem um regime de exceção no qual você não pode denunciar, não pode falar as coisas, tudo fica enrustido. E, quando as coisas ficam menos visíveis, uma série de gente gosta de dizer “não, nós somos melhores”. Veja bem, foi o governo Dilma que criou em 2012, a Lei da Transparência. Uma Lei que obriga todos a produzirem e divulgarem os seus dados.
Agora, a Lei da Transparência vale para o setor público. Nós não temos uma Lei da Transparência para o setor privado. Quando você fala em corrupção, as pessoas pensam em política e em políticos. Ninguém raciocina que você não tem corrupção do político sem que ele receba dinheiro de alguém. Não existe apenas metade da laranja. Eu publiquei um livro agora, pela Fundação Perseu Abramo, chamado “Os Estranhos Caminhos do Nosso Dinheiro” (confira aqui a íntegra) no qual eu analiso como os mecanismos de corrupção funcionam no Brasil e no plano internacional.
No livro você detalha esse funcionamento também no plano internacional?
[ Dowbor ] Sim, porque com a crise, a partir de 2008, as fraudes dos grandes grupos financeiros foram tão monumentais que, em diversos países, foram feitos esforços muito grandes para puxar os números e descobrir o que estava acontecendo. A crise desabou em cima da gente. Na época, inclusive, o (banco) Lehman Brothers estava classificado pelos índices de cotação das agências de risco como o Triplo A, ou seja, o máximo.
Por isso, o Zé Dirceu escrevia que essas agências não tem mais a menor legitimidade, porque dentre outras razões, elas não previram, nem denunciaram aquilo, aquela iminente quebra…
As pessoas não sabem que essas empresas (agências de risco) são pagas pelas pessoas que elas auditam. E são apenas três.
As agências de risco?
[ Dowbor ] Sim. Não são agências públicas, não é coisa pública. Elas são pagas pelo serviço. O que faziam, por exemplo, com a Enron antes da Lehman Brothers? A equipe de auditoria ia lá para ver os números, sentavam com os contadores da empresa, aconselhavam “olha, melhora isso assim, aquilo assado”. Eles ganhavam como consultores. Aí, depois, voltavam para a empresa para fazer a auditoria.
Com a crise, gerou-se um grande pânico e as cifras vieram à tona. Saíram coisas muito interessantes. Por exemplo, os números dos paraísos fiscais. O PIB mundial hoje é de US$ 70 trilhões. Mas, segundo a principal pesquisa, da Tax Justice Network, dirigida pelo James Henry, ex-economista da McKinsey (uma grande empresa), nesses paraísos fiscais existe entre US$ 21 trilhões a US$ 30 trilhões. E a estimativa é que o Brasil teria cerca de US$ 520 bilhões – quase R$ 1 trilhão. O PIB do Brasil é R$ 4 trilhões, ou seja, estamos falando de 25% do PIB brasileiro desviado para paraísos fiscais. Isso acontece por evasão fiscal, corrupção, o que você quiser. Os diversos caminhos de desvio dos recursos da sua utilidade social e da sua legitimidade são avassaladores.
E os mecanismos de desvios e fraudes aqui no Brasil são semelhantes aos utilizados internacionalmente?
[ Dowbor ] São muito semelhantes, mas com algumas diferenças. Por exemplo, os desvios de dinheiro através dos sistemas bancários na Europa e nos Estados Unidos se dão mais por alavancagem. No Brasil, mais por taxas de juros. A alavancagem é interessante. É bom explicar porque a maior parte das pessoas não sabem. Por exemplo, se eu tenho a minha poupança no banco e eles me pagam 8% sobre a minha poupança e aí se eles emprestam esse dinheiro a 20%, eles dizem “estou emprestando a 20%, mas tenho de pagar 8% ao dono deste capital”.
Banco ganha emprestando o dinheiro que não tem
Como a pessoa não retira esse dinheiro, o que os bancos fazem? Eles emprestam 20% desse dinheiro para um cliente; mais 20% do mesmo dinheiro para outro; mais 20% para outro e assim por diante. É isso que se chama alavancagem. Todos os bancos conhecem isso. Eu estudei na Suíça, onde se formam os banqueiros, e eles diziam que a principal forma do banco ganhar dinheiro não é emprestando dinheiro e ganhando com o spread entre o que custa para ele e o que ele empresta, o que seria no nosso exemplo 12%. Não. O banco ganha dinheiro emprestando o dinheiro que ele não tem (que é do cliente), com a alavancagem.
O Lehman Brothers, quando chegou a crise, tinha uma alavancagem de 31. Isso significa que ele tinha US$ 10 bilhões em caixa, mas havia emprestado US$ 310 bilhões. E se todos os clientes, de repente, inventam de buscar esse dinheiro? Aí eles diziam, “a gente empresta do Citbank”. O problema é que o Citbank estava fazendo a mesma coisa e o outro banco idem. E e por aí vai. Estou falando da alavancagem, mas existem outros mecanismos. O mercado de futuro, os derivativos que permitem aos bancos emitirem direitos de opção de compra sobre produtos, como se fossem moedas. Mas não são moedas, são apenas papéis que circulam. Eles são muito usados aqui. Para você ter uma ideia, o PIB mundial é de US$ 70 trilhoes e os derivativos emitidos pelos bancos já superam US$ 600 trilhões. É por isso que o pessoal da área econômica diz que é o rabo que abana o cachorro e não o contrário.
Os produtores, os trabalhadores, os empresários efetivamente produtivos, todos são prejudicados por esse sistema, porque ele gera apropriação pelos intermediários. Os traders e todos os sistemas financeiros que foram criados rompem qualquer lógica. Esse sistema, mundialmente aceito, de financeirização da economia é o principal vetor do refluxo da igualdade. Nesse sentido, um país como o Brasil está na contra-corrente, porque nós estamos aumentando a base da nossa igualdade.
Mas, se o governo, se a presidenta Dilma perder a eleição em outubro, não vem um retrocesso nessa usca pelo aumento da igualdade?
Sem dúvidas. Volta aquilo que havia anteriormente (antes dos governos do PT). Veja a guerra das elites na América Latina. Basta observar o que aconteceu na Venezuela, em Honduras, as tentativas no Chile, na Bolívia. Tirar o supérfluo dos ricos é complicado. Agora, há um conjunto de produtores sérios. O fato de se expandir o mercado externo melhorou muito, porque nós tivemos a criação de pequenas e médias empresas em uma quantidade impressionante. Gente que responde a novas demandas que estão aparecendo nas populações, que está comprando e gerando pequenas empresas.
É importante dizer que o PIB não mede de maneira adequada o resultado. O PIB não mede resultados, mas os esforços da economia. Mede, por exemplo, a velocidade da máquina, mas não o que se faz. Por exemplo, se eu faço educação, esse pessoal que hoje está entrando via ProUni vai se tornar produtivo daqui uns anos, não agora. Hoje, nós estamos no esforço (de fazer, mas…), o resultado vem lá na frente. O mesmo em relação às infraestruturas que estão sendo criadas e que vão gerar capacidades. Agora nós estamos fazendo o esforço, o resultado virá lá na frente. Isso não conta como investimento no PIB. Aí você escuta a gritaria de que o PIB é pequeno. Mas, ora, 2% a 3% de crescimento de PIB ao ano é razoável e você tem o menor desemprego da história. As pessoas não entendem isso.
A Maria Conceição Tavares (professora, economista, ex-deputada) acabou de publicar uma entrevista em que ela diz: “PIB, pibinho…? eu acredito nos clássicos, emprego, elevação de salário mínimo, inclusão da base social e investimentos” (vejam aqui a entrevista). A Conceição faz parte desse conjunto de economistas que hoje estão afluindo muito rapidamente. A coisa é bem diferente.
Da "Carta Maior"
http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2F-O-Brasil-esta-mudando-para-melhor-Nao-da-para-contestar-isso-%2F7%2F30888
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